Neste sábado (31), evangélicos em todo o mundo celebram os 509 anos da Reforma Protestante.
No dia 31 de outubro de 1517, em Wittemberg, na Alemanha, o então monge Martinho Lutero pregou as 95 teses na porta da Igreja Católica, denunciando a heresia e a corrupção do clero, dando início a uma revolução da fé cristã.
Lutero condenou o sistema de indulgências, onde os fieis compravam o perdão e o livramento da punição de seus pecados, e defendeu a salvação somente pela fé em Cristo Jesus.
Lutero e outros reformadores fizeram a defesa da centralidade da Palavra de Deus, do livre acesso à Bíblia e do sacerdócio universal dos crentes, onde todo cristão tem acesso direto a Deus através da mediação de Cristo.
Na época, graças à recente invenção da imprensa móvel, as ideias reformadoras de Lutero logo se espalharam para outros países da Europa. Em 1519, o movimento alcança a Inglaterra, a França e a Suíça, fomentando um crescente apoio às reformas e questionamentos às doutrinas da Igreja Católica.
Calvino envia missionários ao Brasil
Nicolas Durand de Villegaignon. (Foto: Wikimedia Commons).
Anos depois, a fé protestante chegou ao Brasil colonial através de uma expedição missionária, enviada pelo próprio reformador João Calvino.
Na época, a imensa costa brasileira não era completamente controlada por Portugal e outros países europeus enviaram expedições ao Brasil.
Foi assim que o aventureiro e vice-almirante francês Nicolas Durand de Villegaignon decidiu fundar uma colônia na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
A expedição com dois navios de Villegaignon chegou à Guanabara no dia 10 de novembro de 1555.
Pedido de reforço: navio com protestantes chega ao Rio de Janeiro
O grupo foi bem recebido pelos índios tupinambás e se estabeleceu na pequena ilha de Serigipe (hoje a área ao lado do Aeroporto Santos Dumont). A região já era frequentada por franceses.
Enfrentando várias dificuldades da nova colônia, Nicolas Villegaignon escreveu à Igreja Reformada de Genebra pedindo o envio de pastores e colonos para espalhar a fé reformada entre os franceses e evangelizar os indígenas.
João Calvino escolheu os pastores Pierre Richier, de 50 anos, e Guillaume Chartier, de 30 anos, para serem enviados na missão.
Vários protestantes calvinistas franceses (chamado de huguenotes) acompanharam os pastores: Pierre Bourdon, Matthieu Verneil, Jean du Bourdel, André Lafon, Nicolas Denis, Jean Gardien, Martin David, Nicolas Raviquet, Nicolas Carmeau, Jacques Rousseau e Jean de Léry.
A frota de três navios, comandada por Bois Le Conte, sobrinho de Villegaignon, levava cerca de 290 protestantes, incluindo algumas mulheres, e saiu da Normandia rumo ao Brasil.
A viagem foi muito difícil e, diante da situação, os reformados chegaram a declarar o Salmo 107, que uma parte diz: “Fizeram‑se ao mar em navios, para negócios na imensidão das águas e viram as obras do Senhor, as suas maravilhas nas profundezas. Deus falou e provocou um vendaval que levantava as ondas. Subiam aos céus e desciam aos abismos; diante de tal perigo, perderam a coragem. […] Na sua angústia, clamaram ao Senhor, e Ele os livrou das suas aflições”.
Primeiro culto protestante no Brasil
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Primeiro culto protestante do Brasil com Nicolas Villegaignon de armadura. (Foto: Oswaldo Carvalho/Palácio de São Joaquim).
No dia 10 de março de 1557, os viajantes desembarcaram na Baía de Guanabara. Naquele mesmo dia, todos se reuniram em uma pequena sala no centro da ilha de Serigipe e realizaram um culto de ação de graças, marcando o primeiro culto protestante no Brasil.
O pastor Pierre Richier iniciou a reunião com uma oração, logo após, os cristãos cantaram o Salmos 5. Em seguida, Richier pregou um sermão baseado no Salmos 27.4
Depois do culto, os protestantes comeram sua primeira refeição brasileira: farinha de mandioca, peixe moqueado e raízes assadas no borralho. Naquela noite, eles dormiram em redes.
A Santa Ceia foi celebrada pela primeira vez pelo grupo no dia 21 de março.
Perseguidos devido a fé protestante
Mais tarde, o vice-almirante Nicolas Villegaignon acabou entrando em conflito com os protestantes por questões doutrinárias e os expulsou da ilha.
Em 4 de janeiro de 1558, o grupo partiu para a França a bordo de um velho navio. O comandante alertou que a viagem seria difícil e que não haveria alimento para todos.
Então, cinco cristãos se ofereceram para voltar ao Brasil: Jean du Bourdel, Matthieu Verneil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques Le Balleur.
No início, Nicolas Villegaignon os recebeu de forma amistosa, mas logo acusou os homens de serem traidores e espiões.
Os primeiros mártires protestantes do Brasil
Villegaignon fez um questionário sobre pontos doutrinários da fé cristã e lhes deu doze horas para responderem por escrito. As respostas dos protestantes resultaram na Confissão de Fé da Guanabara ou Confissão Fluminense.
O vice-almirante considerou heréticos vários pontos do documento e decidiu executar os cristãos.
No dia 9 de fevereiro de 1558, Jean du Bourdel, Matthieu Verneil e Pierre Bourdon foram estrangulados e seus corpos foram lançados no mar.
Jacques Le Balleur tentou fugir, mas foi capturado e passou seis anos preso na Bahia. Mais tarde, ele foi levado ao Rio de Janeiro, onde foi enforcado. Já André Lafon foi poupado por ser o único alfaiate da colônia.
Os homens mortos foram considerados os primeiros mártires protestantes do Brasil.



